A criação em Laboratório

Há dias veio a lume a notícia de que tinham, pela primeira vez, sintetizado vida em laboratório. Os avanços da moderna biologia são verdadeiramente espantosos! Sobretudo depois da descoberta da importância da cadeia de ADN na constituição da vida e da possibilidade de podermos manipulá-la, as descobertas sucedem-se numa torrente que só os especialistas conseguem dominar. Ao público em geral fica apenas a ideia de que o ser humano já descobriu os segredos da vida e é capaz de a dominar como bem entender. Embora saibamos que as coisas não são bem assim, a verdade é que o poder do ser humano, neste como noutros campos, veio alargar o âmbito da responsabilidade ética. Quanto maior for o poder, maior é a responsabilidade de quem o detém.
Mas a ética não pode funcionar como represa ao progresso científico. Do lado dos mais conservadores e alarmistas está a convicção de que é necessário impedir os cientistas de avançar com as suas investigações, através de um controlo externo da sua acção. Não partilho a mesma convicção. Contudo, parece-me razoável que os próprios cientistas definam caminhos de indagação científica no quadro de uma orientação ética amplamente partilhada pelos seus pares e pela sociedade em geral. A responsabilidade exige-o, sob pena de transformarmos a vida, e sobretudo a vida humana, num pedaço de matéria que se encontra à disposição dos nossos caprichos e das nossas pequenas glórias pessoais, mesmo que para tal tenhamos de sacrificar outrem.
Mas que dizer desta nova conquista em laboratório? Que significado terá? Será a vida redutível a uma organização complexa de matéria? Tudo leva a crer que sim. E a vida humana? O ser humano sempre se achou substancialmente distinto dos restantes elementos do mundo material e orgânico. O conceito de dignidade humana, a questão dos direitos humanos, etc. aí estão para nos lembrar esta concepção humanista do mundo. É inegável que, dadas as suas condições intelectuais e a capacidade de acção que delas derivam, o ser humano tem uma responsabilidade que mais nenhum habitante da Terra detém. A forma como explorou e continua a explorar, sem dó nem piedade, os recursos naturais é apenas mais uma chamada de atenção para as possibilidades destrutivas, derivadas do poder do ser humano. E quanto maior for o poder, tanto maior é a responsabilidade ética. Mas apesar da consciência ética, da liberdade, da inteligência e da autoconsciência que tornam o ser humano um caso à parte no universo que conhecemos, as novas investigações da biologia não nos obrigam a repensar o lugar do ser humano no mundo orgânico e, de uma forma geral, no mundo material? Não nos constrangem a sermos mais humildes e a negar, por princípio, qualquer diferença substancial em relação aos seres remanescentes?
Talvez sim. E contudo creio que o ser humano, enquanto indivíduo que tem consciência de si próprio como um ponto de vista único e inalienável sobre o mundo, é mais do que a sua composição bioquímica. Mas esse excesso é indefinível e, como tal, permanece um mistério para nós próprios.

Uma resposta a A criação em Laboratório

  1. Zé Pereira diz:

    Estamos a desanimar? Não podemos perder a esperança e o ânimo da caminhada.

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