David e o sentido da vida

Na minha visita quase diária à Bíblia, deparei-me com uma oração, colocada pelo narrador na boca do rei David, que me impressionou. O contexto do relato é o dos preparativos para a construção do templo de Jerusalém, que David não havia de fazer pelo facto de as suas mãos estarem demasiado tingidas de sangue devido às múltiplas guerras que enfrentou. No fim da vida, passa o testemunho ao seu filho Salomão, exortando-o a concluir o seu sonho de sempre. Solicita igualmente a todo o povo que faça as suas ofertas para que o templo tenha a imponência compatível com a grandeza e santidade do Deus de Israel. Por fim, observa David:
— Quem sou eu e quem é o meu povo, para te podermos oferecer todas estas coisas? Pois é de ti que tudo vem e nada te poderíamos oferecer, se não nos viesse das tuas mãos. Diante de ti, Senhor, nós somos como estrangeiros, exilados, tal como os nossos antepassados. Os nossos dias sobre a Terra passam como uma sombra, sem esperança (1Cr 29, 14-15).
É espantosa a profundidade espiritual destas palavras com mais de dois mil anos. Afinal, não mudámos muito. Sim, é verdade, houve transformações do ponto de visto dos estilos de vida, pro-vocadas pelas descobertas que a ciência e a tecnologia nos ofereceram. Mas quanto às questões essenciais da vida, ao sentido da existência humana, ao significado do mundo e de tudo quanto existe, não avançámos significativamente.
Para quem acredita em Deus, como podemos nós oferecer o que quer que seja àquele de onde tudo provém? Se tudo o que temos nos foi dado, se a nossa própria existência é dom absoluto para nós mesmos, qualquer oferta que a Deus pretendamos fazer não é mais do que o regresso a ele de tudo o que lhe pertence por direito próprio. Em última instância, aquilo que Deus realmente quer de nós não são os objectos do mundo, é a nossa própria condição de seres cuja incumbência no mundo é construí-lo a partir de um plano pessoal que cada um tem de descobrir, sob pena de caminhar à deriva na estrada da vida.
Na verdade, a condição humana, enquanto ser do mundo, que nele vagueia através de sombras, encontra em si mesma o desassossego que a faz pressentir não ser este o destino da sua existência. Afinal, somos estrangeiros no mundo onde nos foi dado habitar e onde somos chamados a construir-nos. Nesta terra de exílio achamos vagamente um sentido, quando a miséria da vida nos não oculta a verdade sobre nós mesmos e sobre o mundo. David entrevê este dissídio no coração humano. Só Deus poderia ser a pátria definitiva, o sentido sem outra fronteira que o limite. Mas como integrar essa entrega confiante na certeza da morta que tudo derrota? Sem um retorno ao absoluto, dos dias que passam como sombra não corre a brisa da esperança. A morte é a noite do nada ruindo todos os sentidos possíveis, excepto se até o nada for o próprio Deus.

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