Jesus de Nazaré

As principais fontes históricas para a reconstrução da mensagem, das atitudes e do destino de Jesus de Nazaré são os quatro evangelhos canónicos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Há ainda outros textos não canónicos (apócrifos), mas são, na sua generalidade, substancialmente mais fantasiosos e, portanto, menos fiáveis do ponto de vista historiográfico.
Contudo, mesmo os evangelhos canónicos não podem ser usados de forma acrítica para efei-tos de estudos históricos. São essencialmente textos escritos com intenções teológicas que preten-dem conduzir o leitor à identificação de Jesus com o Messias esperado, o Salvador, o Filho de Deus. São textos de natureza religiosa; não foram escritos com intenções historiográficas. Além disso, foram o resultado de um complexo processo de redacção que iniciou com os testemunhos orais daqueles que tinham convivido directamente com Jesus, passou pela utilização de pequenas narrativas para vários fins (litúrgicos, catequéticos…) no seio das comunidades cristãs primitivas e ficou concluído com a redacção final dos actuais textos por autores cuja identidade nos é desconhecida, utilizando as mais variadas fontes mas subordinando-as a objectivos de natureza teológica, específicos de cada evangelho. Sabemos também que o evangelho mais antigo — o evangelho de Marcos — só foi concluído cerca de quarenta anos após a morte de Jesus, ou seja, quando as testemunhas oculares já haviam desaparecido. Os estudos sobre os evangelhos de Mateus e de Lucas demonstraram que, para além de outras fontes, utilizaram Marcos como fonte para a sua redacção. O evangelho de João é o mais tardio e um caso à parte. Na sua globalidade, é uma grande reconstrução teológica sobre Jesus, afastando-se consideravelmente do Jesus histórico. É, por isso, o que menos nos ajuda quando pretendemos reconstruir o essencial da mensagem e das atitudes de Jesus.
Assim sendo, a utilização dos quatro evangelhos para fins historiográficos deve ser muito cautelosa. Desde o século XIX que se têm produzido milhares de estudos histórico-críticos com base nestes textos. Hoje temos algumas certezas sobre a mensagem do Jesus histórico e sobre o seu comportamento geral. Também sabemos qual foi o seu destino: por volta do ano 30 d.C., em Jerusalém, por ocasião da festa da Páscoa, foi levado a julgamento, condenado à morte e crucificado num lugar chamado Gólgota («lugar do crânio»), fora da cidade mas suficientemente perto para servir de exemplo a todos os que pretendessem infringir as normas em vigor. Mas discute-se qual terá sido a razão que conduziu ao seu julgamento e condenação. Talvez não tenha havido apenas uma razão, mas um conjunto de razões. Os evangelhos não nos são de grande ajuda porque, escritos num contexto posterior, no qual o conflito entre a igreja primitiva e o judaísmo estava no seu auge, pretendem ilibar as autoridades romanas e atribuir a principal responsabilidade da crucificação de Jesus às autoridades judaicas ou aos «judeus», em geral. É altamente provável que esta perspectiva reflicta apenas o contexto em que os evangelhos foram escritos e não o contexto dos acontecimentos narrados.
De qualquer forma, não há dúvida de que Jesus entrou em conflito com as autoridades judai-cas por causa da sua maneira pouco convencional de conceber a religião. Sobretudo, a sua concep-ção de um Deus dos perdidos, dos abandonados provocou incompreensões no status quo. O poder religioso pretendia estabelecer uma clara divisão entre os que cumpriam fielmente a Lei de Moisés e os que não estavam em condições ou não queriam cumpri-la. Jesus, pelo contrário, inclui toda esta multidão de pessoas na acção amorosa de Deus, parecendo, com isto, desvalorizar a própria Lei divina. Embora Jesus sempre se tenha enquadrado no âmbito do judaísmo (não foi consciente-mente o fundador de uma nova religião), a sua maneira de conceber a relação entre a humanidade e Deus e a relação entre as pessoas difere substancialmente daquela que tinham as autoridades judaicas, apesar de haver grupos variados com interpretações díspares da Lei também entre as autoridades religiosas. De qualquer forma, Jesus deve ter parecido demasiado reformador e, sobretudo, era amplamente aceite pelas camadas mais desprotegidas da sociedade, aquelas que nada têm a perder e que, portanto, quando organizadas, podem constituir uma séria ameaça às instituições. Certamente, tanto as autoridades religiosas como as autoridades romanas viram em Jesus o mentor de um movimento que poderia ameaçar a ordem. E terá sido por isso que foi julgado e condenado, tanto pelo sinédrio judaico como pelo prefeito romano.
Também é certo que os discípulos, aquando da prisão de Jesus, fugiram todos com medo de terem o mesmo fim. Jesus teve de enfrentar a morte inteiramente sozinho. Depois de ter morrido, José de Arimateia, uma pessoa influente do judaísmo e simultaneamente um admirador de Jesus, terá pedido o seu corpo a Pilatos para lhe dar sepultura condigna. Terá sido ele próprio a preparar o corpo e a depositá-lo num sepulcro talhado na pedra, perto do lugar da crucificação.
O que aconteceu a seguir é completamente inacessível aos estudos historiográficos. O túmulo vazio, a sua interpretação teológica (Jesus ressuscitou) e os múltiplos relatos das aparições de Jesus movem-se dentro dos limites da fé religiosa, não podendo ser objecto de análise histórica. Para quem acredita num Deus cuja bondade excede os limites daquilo que possamos sequer imaginar, a morte não pode ser o destino definitivo do ser humano, sobretudo do ser humano inocente, vítima da injustiça humana.

2 respostas a Jesus de Nazaré

  1. Zé Pereira diz:

    Um dos melhores livros, e talvez mais completos, que eu li sobre a vida de Jesus é “A verdadeira História de Jesus” de E. P. Sanders.
    Sublinha: – “Tudo o que se pode , com rigor histórico, sobre Jesus”.
    E. P. Sanders é, hoje, o maior especialista americano na investigação sobre a vida de Jesus… Diz John B. Meier – Prof. da Universidade Católica.

  2. Jorge Paulo diz:

    De facto, esse livro é excepcionalmente bom. Também saiu recentemente em Portugal um estudo com base em achados arqueológicos (de Shimon Gibson) que, na sua complementaridade com o de Sanders, é interessante, embora se refira apenas aos «Últimos dias de Jesus».

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