Crise na Igreja

A crise na Igreja católica vem de longa data. Talvez possamos dizer que é mesmo uma dimensão estrutural da própria Igreja. Comunidade que pretende corresponder às exigências do Evangelho de Jesus, mantém, pelo contrário, uma distância mais ou menos profunda em relação a essa finalidade, porque entre o ideal e o real estão, de permeio, as pessoas com os seus defeitos e limitações. Observando com alguma atenção a história da Igreja vemos que a épocas de alguma acalmia se sucederam momentos tumultuosos, cujas consequências se prolongaram, umas mais, outras menos, no tempo.
Nos últimos séculos, a Igreja oficial, hierárquica, foi-se identificando com as estruturas mais conservadoras e decadentes da sociedade e rejeitando, muitas vezes através de condenações insensatas, tudo o que podia ser considerado «moderno». Este processo de divórcio entre a Igreja e o progresso social tem as suas raízes mais recentes na revolução francesa, com a queda do Antigo Regime — com o qual a Igreja se identificava — e os consequentes abanões que provocou nos restantes países europeus.
Actualmente, é tempo de introduzir reformas substanciais na estrutura, na vida e no ideário oficial da Igreja católica. Embora essas reformas aconteçam, se de facto acontecerem, a reboque da situação desfavorável que a Igreja vive no interior de sociedades secularizadas, essa não deve ser a motivação essencial. Ai da Igreja se pretender introduzir alterações para salvar o prestígio perdido! A grande motivação tem de ser a realização do Evangelho de Jesus e a constatação da distância a que a instituição se encontra dessa finalidade.
Os múltiplos escândalos relacionados com a pedofilia são apenas mais um sintoma da doença. É por isso, urgente, que se encontre a cura para tantos males que afugentam as pessoas e descredibilizam a imagem desta veneranda instituição bimilenar.
Onde é preciso reformar? Eu diria que em quase tudo. Desde o excessivo dogmatismo no plano da doutrina, a intransigência oficial em relação a matérias relacionadas com a sexualidade, a forma de recrutamento dos dirigentes das comunidades (vulgo: padres), a linguagem litúrgica, a liberdade de expressão teológica, a situação das mulheres na Igreja (de evidente discriminação), a forma medieval, autoritária, de exercício do poder hierárquico, a situação dos leigos de completa subalternidade, etc.
Só uma assembleia geral (concílio, sínodo ou outra com presença de leigos) que repense a Igreja, como alguns têm proposto, poderá fazer o diagnóstico completo da situação e apresentar pistas de reforma que mais não serão do que o regresso às formas simples de vivência cristã em sintonia com as interpelações do Evangelho de Jesus.
Como última nota e porque se fala hoje tanto de pedofilia no interior da Igreja, gostaria de referir que o problema central parece-me estar na maneira como os padres são recrutados. O modelo tridentino dos seminários como instituições de formação interna de jovens — retirados do mundo para paradoxalmente se prepararem para o exercício de funções no mundo — parece-me esgotado. Não seria tempo de voltarmos a reflectir sobre as antigas formas de recrutamento dos dirigentes das comunidades, através de processos (democráticos) de eleição daqueles que melhor perfil apresentam para exercerem esses cargos?
De qualquer forma, dói-me ver a Igreja a definhar ao mesmo tempo que utiliza a estratégia do bastião, como se reformar a Igreja fosse desfigurá-la. Parece-me falta de memória histórica não admitir que a reforma da Igreja é intrínseca à sua natureza de comunidade humana permanentemente à procura de Deus.

2 respostas a Crise na Igreja

  1. Zé Pereira diz:

    Concordo plenamente consigo. É necessário repensar a Igreja para que não cairmos no descrédito total.
    Quem de direito que tome a iniciativa para que os poucos que restamos não fujamos e abandonemos a nossa Fé.
    Jesus Cristo e o seu Evangelho merecem-no.

  2. Sonia Eduardo diz:

    Parece muito triste a Igreja na medida em que se vê arrolada numa série de conflitos relacionados com a pedofilia e desta forma sentem e lamentam-se por perderem todos os dias seguidores.
    A Igreja católica passa acima de tudo por uma imensa crise interna com Padres arrogantes e a roçar quase a má educação que poderão confirmar com o que de seguida passarei a descrever.
    Neste passado dia 20 de Junho do actual ano de 2010 a convite fui assistir a um casamento religioso e nunca na minha vida inteira havia encontrado um Sr. Padre tão mal intruído na tarefa de espalhar a palavra de Deus.
    Estou a falar da Igreja de xxxxxxx em xxxxxxxxx, o casamento começou por volta das 12:30 h e o Sr. Padre estava ligeiramente atrasado por havia estado numa qualquer festa. Assim que a Igreja ficou cheia com os convidados começou o patético discurso do Sr. Padre.
    Começou por dizer que exigia todos os telemóveis desligados, o que até entendo, insistindo que não era suficiente pôr em silêncio, segundo ele e no seu calão afirmou; “telemóveis zero”.
    Ao contrário dos escritos bíblicos em que se diz, “Venham a mim as crianças”, este Sr. Padre simplesmente afirmou que todas as crianças presentes…” ao minimo pio, zás e devem ir lá pra fora”.
    Alonga-se porém afirmando que existem sardinhas frescas, sardinhas congeladas e sardinhas podres e que ficaria grato aos noivos que se voltassem daí a 25 anos para comemorarem as bodas de prata que não convidassem muitos dos presentes.
    Ninguèm conseguiu entender como este Sr. Padre em 5 minutos conseguiu fazer uma avaliação tão pormenorizada dos presentes.
    Como é óbvio, apartir deste momento a questão que mais se colocava entre os presentes era da possibilidade de o Sr. Padre se encontrar alcoolizado.
    Passou a dita cerimónia a dizer alarvidades e a Igreja tornou-se um espectáculo digno de um circo.
    Nunca havia visto nada semelhante em paróquia nenhuma e não me surpreende que a Igreja Católica esteja em queda com representantes destes.

    Existem os que gostam demais de crianças e neste caso os que as odeiam…Esta religião precisa de uma séria limpeza.

    Admin: agradedemos o seu comentário e participação neste blog. O mesmo foi aprovado permitindo a sua publicação, no entanto a identificação lo local ou das pessoas foi deletada. A sua opinião é livre e bem-vinda e neste sentido aceitamos a sua opinião.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: