Quarta-feira de Cinzas

Quarta-feira de Cinzas. Reiterado, o apelo à conversão constitui-se como uma voz interior reclamando reforma.
Subsistimos na dispersão do mundo. Toda a realidade exterior é fragmentária. E no meio dessa disseminação de objectos, cores, formas, vozes ou apelos, também nos autoconcebemos como seres estilhaçados à procura da unidade que acreditamos ser o porto de abrigo da peregrina-ção sem descanso a que chamamos vida. Somos nostalgia da unidade. Nunca nela nos detivemos em toda a sua plenitude, ou pelo menos não temos disso a mais pequena memória. Mas não deixamos de a amar. E longe de nós, esse uno que amamos sem conhecer inteiramente convoca-nos para a mesa da fraternidade com todos os seres que partilham connosco o mesmo universo. E que será essa fraternidade senão a própria união com o todo, na qual cabe cada parcela de ser, cada suspiro de matéria ou átomo de espírito?
E é assim que entendo a conversão: apelo permanente ao ponto para onde tudo tende, que mora nos braços da eternidade na qual se recolhe todo o sentido disperso. Mas sem o esforço de nos construirmos em torno dessa vontade comum, estaremos condenados a escapar à força universal da vida e a perdermo-nos como estilhaços na noite?

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