Um ramo de flores na berma da estrada

Bem sei o que diria Séneca em circunstâncias como esta que vou descrever, mas há amargu-ras que abalam os próprios fundamentos da existência. Quase todos os dias percorro uma estrada, junto a uma escola, que ostenta na berma, encastoado num candeeiro público, um ramalhete de flores. Sempre frescas, sempre renovadas, sempre cuidadas.
Desconhecendo o significado preciso de semelhante sinal, dou largas à minha imaginação e vejo no ramo todo o sofrimento de uma mãe e de um pai a quem roubaram a vida de um filho, quando inadvertidamente saía da escola. E o acto reiterado de expor publicamente o próprio sofri-mento será, porventura, redentor. Naquelas flores coexiste o vazio que a perda irreparável deixou e a esperança de que a memória, não apenas pessoal mas colectiva, impeça que o abismo do esqueci-mento ofereça à morte a palavra definitiva; a palavra que o amor, talvez inútil, lhe nega em cada instante. E a memória do que não conheço invade-me a alma, criando raízes sobre o deserto.
Bem sei o que Séneca diria: que a morte habita o coração da vida e que constitui uma certeza inabalável; porque haveríamos de nos inquietar com aquilo que decerto nos vai acontecer, a nós e àqueles que amamos? É só uma questão de tempo. Oiço o murmúrio da sua voz, incitando à renúncia: aceita a tua condição, aceita a condição efémera de todos os seres humanos! A morte está no cerne da ordem natural das coisas, não há maneira de a derrotarmos. Porque haveríamos de nos angustiar com tamanha evidência?
E contudo, há qualquer coisa no ser humano que o torna rebelde à sua própria condição de mortal e, sobretudo, à falência dos que amamos. Talvez tenhamos nascido para a vida e, por isso mesmo, a morte nos não contente.

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