«Um homem bom»

Ontem vi o filme «Um homem bom». Foi a prova acabada de que não basta ser-se bom para se conseguir derrotar a desumanidade patente em acontecimentos que nos ferem a consciência moral. Não, não basta ser-se bom! É preciso igualmente ser-se corajoso e ter força de carácter. Um homem pusilânime, como o do filme, vê-se constantemente torturado pela cisão que estabelece entre o que pensa — fruto da sua bondade — e o que faz — fruto das conveniências do momento e, sobretudo, da sua incapacidade para dizer não aos eventos que o arrastam sem piedade para aquilo que ele não deseja ser.
Também o despojamento é tão essencial como a bondade. Perante a iminência de garantir para si e principalmente para a sua família um estatuto e uma forma confortável de vida, o homem bom desfalece quando a consciência lhe exige que rompa com o círculo de violência em que participa. Não suporta as consequências de semelhante acto de coragem. Serão decerto brutais, tanto para a sua vida pessoal como para a sua família, mas pode um homem bom pactuar com o mal, com a desumanidade levada ao extremo, com a miséria de uma consciência totalmente aniqui-lada pelo ódio e pela vingança?
E enquanto via o filme, ocorreram-se, por contraste, as imagens de Dietrich Bonhoeffer, Nikolaus Gross ou Alfred Delp, entre muitos outros, que tombaram sob a barbárie nazi não apenas por serem homens bons mas sobretudo por terem ousado afrontar o sistema com a coragem de quem não pretende lutar até ao limite pela manutenção da própria existência, mas pelo direito dos outros à existência e a uma existência digna e humana. E a diferença entre o herói (ou anti-herói) do filme e estes últimos foi o facto de o primeiro, atormentado pelos próprios fantasmas, viver uma vida cujo sentido se havia desvanecido, enquanto os outros, assassinados às mãos de um sistema iníquo, atribuíram em cada acto de rebeldia um sentido total à sua existência. É que não basta obter-se longevidade. É igualmente necessário que o tempo que se vive faça sentido.

Jorge Paulo

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