Ainda a Homenagem ao Pe. João

Recebi esta manhã (vindo do Navalho), este texto que foi lido durante a homenagem ao Pe. João em Novembro último. A pedido de alguns colegas que estiveram presentes, o Navalho aceitou publicar este texto e acho que fez muito bem: o texto é de uma rarissima beleza, sincéro e regrupa o sentimento de muitos daqueles que passamos algum tempo com o pe. João.

Fátima, 15 de Novembro de 2008

Padre João

A nossa presença aqui, mobilizados num tão curto espaço de tempo, deve-se necessariamente a razões afectivas. Contudo, e de acordo com o que mostrou Damásio (contra Descartes), os afectos e a razão não andam separados e orientam-se mutuamente. Assim, vou procurar descortinar também os motivos racionais que hoje nos trouxeram aqui, acreditando que serão em grande parte partilhados pelos presentes.

Penso que esse motivos têm a ver com as suas características humanas e de fé que tivemos o privilégio de testemunhar ao longo de vários anos da nossa juventude, guardado em memórias que nos marcaram e que resumiria em algumas palavras chave: capacidade de atenção/escuta; bom senso/inteligência; exigência/testemunho de fé.

Quanto à capacidade de atenção/escuta, lembro que a maioria de nós, entrámos no seminário ainda crianças, para passarmos aqui aquele período critico da nossa vida que os técnicos chamam adolescência (perdoem-me a distorção profissional de psicólogo), período este que se caracteriza por uma afirmação da identidade, frequentemente contra as figuras de autoridade que estão mais próximas e que imponham regras. Estão a ver o perigo?

Adolescentes, num internato e ainda por cima num seminário. Tínhamos todos os ingredientes para a coisa correr mal (e eventualmente ficarmos com memórias semelhantes às de Virgílio Ferreira descritas em “Manhã Submersa”). Tal não aconteceu e penso que em muito se deverá à capacidade de escuta e diálogo do Padre João Baptista. Aquilo que era uma situação de risco, foi compensada pela sua capacidade de escuta e diálogo, acabando por nos fortalecer enquanto homens e cristãos adultos.

Mais… associada à sua capacidade de escuta, acrescentaria a sua inteligência e bom senso. Quem como eu recorda as sessões da “academia”, lembrará certamente quão importante era para nós esse espaço, com a presença do Padre João, permitindo-nos de forma livre colocar questões, pesquisar outras perspectivas e alargar visões. . . .mesmo sobre questões de fé…

A sua inteligência de que beneficiámos não era apenas ao nível das ideias. Quem não lembra os passeios a pé, à Batalha, aos castelos de Ourém, à Serra d’Aire. Lembro ainda bem essas experiências e julgo devê-las ao Padre João (que com isso também ganhou o cognome de Pe João Turista). Nunca mais repeti nada do género, mas gostaria. Penso ter compreendido mais tarde a mensagem que nos queria dar, sobre o esforço, o ter metas, a perseverança, o doseamento do esforço ao longo do percurso, etc.

Por fim, destaco o seu testemunho de fé. Esse testemunho, ainda que baseado na palavra, nas homilias e prelecções, envolvia a totalidade da sua pessoa, na sensibilidade e atenção aos outros (como forma elevada de caridade), na coerência, etc.

Conseguiu dar-nos formulações das questões de fé esclarecidas e abertas, a que provavelmente muitos de nós devem a manutenção da fé até hoje.

Apesar disso, curiosamente, em paralelo com uma formulação aberta de muitas questões religiosas, lembro a sua insistência da reza do terço que, embora sendo associada à religiosidade popular não o era muito entre os alunos.

Pe. João, perdoe-me o abuso interpretativo, mas já fora do seminário ocorreu- me que a sua mensagem era que o terço estava para a fé, como as caminhadas estavam para a vida. Ainda que ambos estejam fora de moda, ambos são um treino para a capacidade de esforço, de perseverança, de ritmo, bem necessários nos dias que correm.

Por fim, penso que em relação à grande maioria dos presentes, coube ao Pe. João o inevitável confronto da questão vocacional de cada um de nós. Era difícil para nós naquela idade, tomar decisões com consequências tão importantes para a vida. O Pe. João, sem deixar de manter a exigência e o desafio (estávamos num seminário não é ?), conseguia colocar essa questão sem coacção, respeitando a personalidade e o ritmo de cada um. Desse modo, conseguiu evitar que essa decisão se transformasse em rotura, mesmo quando a nos sa opção de vida foi outra.

A prova disso é a nossa presença aqui hoje.

Por tudo isto, fica a nossa gratidão e um até à vista. Se só nos voltarmos a ver na eternidade e se esse encontro for no lado bom da eternidade, acredite que a nossa presença aí, se deverá a si, numa parte significativa.

Obrigado!

Francisco Navalho

Uma resposta a Ainda a Homenagem ao Pe. João

  1. padao diz:

    Ainda a homenagem ao Padre João … e ainda mais, hoje, amanhã e sempre que a nossa memória nos permita relembrar todos aqueles que fizeram parte tão importante da nossa formação e da nossa vida.
    Partilho inteiramente este texto. No meu dia a dia, tento agradecer a Deus por esta experiência e por estas pessoas, que em troca de pouco ou nada, tanto fizeram por mim.
    Obrigado Pe. João, (e todos os outros), por terem feito de mim aquilo que hoje sou.

    Agradeço também ao Navalho, ter aceite publicar estas palavras.
    Paulo ADÃO

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