Um dos maiores teólogos do século XX

Enquanto estudante de Teologia, um dos teólogos com cujo pensamento mais contactei foi E. Schillebeeckx, teólogo belga e professor da Universidade de Nimega. O que admirava mais nele — para além do pensamento profundo e intelectualmente estimulante que as obras testemunhavam — era a coragem das suas propostas, dos seus pontos de vista, das suas tomadas de posição frente à posição católica oficial avessa a inovações e a tudo o que pudesse «abalar» o edifício do poder, construído e sedimentado ao longo de séculos.
Um dos indicadores da estatura moral de uma pessoa é a coragem com que enfrenta os pode-res instituídos, quando considera que a sua actuação não está ao serviço da verdade. Neste sentido, Schillebeeckx era um autêntico modelo ético ao assumir o papel de reformador do sistema — man-tendo-se, porém no seu interior. No regresso às fontes — tão obnubiladas por interpretações que mascaravam a sua verdadeira força revolucionária —, propunha novas visões do Cristianismo, afinal em sintonia com aquilo que fora o Cristianismo original.
Mas o que me parece ainda mais interessante foi a descoberta, não apenas dele, mas de muitos outros investigadores, de que o Cristianismo primitivo havia admitido no seu seio uma pluralidade de visões. Pensamento único era coisa inteiramente desconhecida às comunidades cristãs cujo testemunho ficou vertido nos textos do Novo Testamento. No decorrer dos séculos que se lhe seguiram, a estrutura cada vez mais hierarquizada, tendendo a formas de centralização do poder, promoveram, em sintonia com os interesses do Império Romano, uma espécie de asfixia da diversidade direccionada para o triunfo do pensamento único (da ortodoxia, entendida como um corpo de dogmas inalteráveis e eternos). Ora o que este teólogo reclamava era a possibilidade de, na mesma Igreja, coabitarem visões plurais da fé cristã, quando fundadas em dados suficientemente sólidos. A sua luta pela liberdade de pensamento e pela reforma das estruturas tradicionais da Igreja continua a ser um estímulo a quem, hoje, numa Igreja que se apresenta sob formas mais conservadoras do que há alguns anos atrás, pretende alternativas à perspectiva fixista como a Igreja institucional entende a noção de tradição, apoiando despudoradamente os movimentos mais tradicionalistas e ignorando ou mesmo perseguindo os mais progressistas.
E é neste contexto que vejo a urgência de este gigante da teologia do século XX ser lido e apreciado, agora que o vigor do seu discurso oral infelizmente nos não pode chegar, desde o dia 23 de Dezembro último.

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